“NÃO VAMOS QUEBRAR, E ESTE ANO CRESCEMOS 2% A 3%”
Maria da Conceição Tavares nasceu em 1930, em plena crise mundial. Portuguesa, chegou ao Brasil no carnaval de 1954, pouco antes do suicídio de Vargas. Virou brasileira e uma das economistas mais importantes do país, sempre associada ao pensamento nacional-desenvolvimentista. Conviveu com praticamente todos aqueles que conduziram a economia brasileira nos últimos 50 anos. Nos tempos privatizantes de FHC, comeu o pão que Milton Friedman amassou e, apesar de petista, há anos critica o governo pela política de juros altos do Banco Central. Hoje, saboreia o retorno das idéias keynesianas e o fracasso do neoliberalismo. Maria da Conceição recebeu Caros Amigos em seu apartamento no bairro carioca do Cosme Velho, ao pé do Corcovado, no início da estrada que leva ao Cristo Redentor. Irreverente, falou mal de meio mundo – de José Serra (“um chato”) a Hugo Chávez, “um Padre Cícero”.
Mylton Severiano – O leitor da Caros Amigos está acostumado: a gente dá o entrevistado de corpo inteiro. Eu, particularmente, amaria conhecer a sua infância.Tenho 78 anos, minha infância foi em Portugal. Fui para Lisboa com um mês e fiz toda a minha educação lá. Entrei em engenharia, depois fiz matemática. Quando vim para cá já era casada, estava grávida e era matemática.
Mylton Severiano – Por que a senhora veio?Ah, meu filho, lá não dava pé. Bom, meus pais já estavam aqui. Meu marido era engenheiro hidráulico e tinha um convite para o saneamento da Lagoa Rodrigo de Freitas. E lá não tinha emprego, ainda mais porque éramos de esquerda.
Wagner Nabuco – Época do Salazar.Barra pesada. Tinha acabado a guerra. Estávamos achando que o Salazar ia cair, ia democratizar. Mas nem nós nem a Espanha tivemos esse privilégio.
Raquel Junia – A senhora era comunista?Eu e meu marido éramos próximos. Mas não cheguei a me filiar, filiar no quê? Numa coisa ilegal? Deus me livre. Mas me reunia com eles. Ia no Impa, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Conheci o Mário Henrique Simonsen lá. E fui fazer economia, em 57. Era a melhor aluna do (Octavio Gouveia de) Bulhões, do (Roberto) Campos. Consegui um contrato no Instituto Nacional de Colonização e Imigração. Eu fiz as primeiras estatísticas. Virou o Incra. Fui fazer economia. Já tinha 27 anos, acabei sendo boa aluna e o Bulhões me contratou. Conseguiu que me nomeassem. Depois fui professora da escola e fui para o BNDES, trabalhar no Plano de Metas. Já podia, era brasileira. Eu me naturalizei em 1957, convencida pelo Darcy, mas também pelo clima, com o Juscelino era um clima de “vamos para a frente”. Nunca vi tanto entusiasmo e tanta crença no país.
Juliana Ennes – Nem com o Lula?Não, ali você ia fazer o Brasil. Com o Lula, o que você ia fazer era justiça social. Não entusiasma mais as elites, só o povo. Sou petista, sou lulista. Naquela altura, a esquerda toda era contra o Vargas. Tem esse espírito dos cariocas, ser do contra. Todos diziam que era um imperialista. Agora dizem que o Lula é um populista e um vendido aos bancos (risos). A verdade é que os bancos sempre se deram muito bem, obrigado.Agora, 64 é que foi complicado. Estava dirigindo o Cepal-BNDE, formado pelo (Celso) Furtado. Fiquei assustada. Fiquei de vice-diretora em exercício, grávida do segundo filho – eu sempre entro grávida nas situações dramáticas. Agora a única coisa que pode acontecer é eu morrer numa crise mundial (risos).
Wagner Nabuco – A senhora tem memória do dia do golpe?Eu era professora da escola de Economia (Instituto de Economia da UFRJ). O diretório de estudantes é que queimou a UNE. Estava subindo para Copacabana e vi a UNE em chamas. Passei a noite ligada no rádio. Há dois golpes que não posso esquecer. Esse, e o do Chile, tinha estado no Chile entre 68 e 73 e voltei para dar aulas. Aí, na televisão, a única coisa que a gente viu foram as cinzas e a fumaça do palácio. Tirando isso, só a agonia de umas 48 horas no Doi-Codi, sei lá por que diabo. Aliás sei, isso foi contra o Geisel, o Simonsen contou.
Para continuar a ler essa entrevista e outras matérias confira a edição de março da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou assine a versão digital da Caros Amigos.
Maria da Conceição Tavares nasceu em 1930, em plena crise mundial. Portuguesa, chegou ao Brasil no carnaval de 1954, pouco antes do suicídio de Vargas. Virou brasileira e uma das economistas mais importantes do país, sempre associada ao pensamento nacional-desenvolvimentista. Conviveu com praticamente todos aqueles que conduziram a economia brasileira nos últimos 50 anos. Nos tempos privatizantes de FHC, comeu o pão que Milton Friedman amassou e, apesar de petista, há anos critica o governo pela política de juros altos do Banco Central. Hoje, saboreia o retorno das idéias keynesianas e o fracasso do neoliberalismo. Maria da Conceição recebeu Caros Amigos em seu apartamento no bairro carioca do Cosme Velho, ao pé do Corcovado, no início da estrada que leva ao Cristo Redentor. Irreverente, falou mal de meio mundo – de José Serra (“um chato”) a Hugo Chávez, “um Padre Cícero”.
Mylton Severiano – O leitor da Caros Amigos está acostumado: a gente dá o entrevistado de corpo inteiro. Eu, particularmente, amaria conhecer a sua infância.Tenho 78 anos, minha infância foi em Portugal. Fui para Lisboa com um mês e fiz toda a minha educação lá. Entrei em engenharia, depois fiz matemática. Quando vim para cá já era casada, estava grávida e era matemática.
Mylton Severiano – Por que a senhora veio?Ah, meu filho, lá não dava pé. Bom, meus pais já estavam aqui. Meu marido era engenheiro hidráulico e tinha um convite para o saneamento da Lagoa Rodrigo de Freitas. E lá não tinha emprego, ainda mais porque éramos de esquerda.
Wagner Nabuco – Época do Salazar.Barra pesada. Tinha acabado a guerra. Estávamos achando que o Salazar ia cair, ia democratizar. Mas nem nós nem a Espanha tivemos esse privilégio.
Raquel Junia – A senhora era comunista?Eu e meu marido éramos próximos. Mas não cheguei a me filiar, filiar no quê? Numa coisa ilegal? Deus me livre. Mas me reunia com eles. Ia no Impa, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Conheci o Mário Henrique Simonsen lá. E fui fazer economia, em 57. Era a melhor aluna do (Octavio Gouveia de) Bulhões, do (Roberto) Campos. Consegui um contrato no Instituto Nacional de Colonização e Imigração. Eu fiz as primeiras estatísticas. Virou o Incra. Fui fazer economia. Já tinha 27 anos, acabei sendo boa aluna e o Bulhões me contratou. Conseguiu que me nomeassem. Depois fui professora da escola e fui para o BNDES, trabalhar no Plano de Metas. Já podia, era brasileira. Eu me naturalizei em 1957, convencida pelo Darcy, mas também pelo clima, com o Juscelino era um clima de “vamos para a frente”. Nunca vi tanto entusiasmo e tanta crença no país.
Juliana Ennes – Nem com o Lula?Não, ali você ia fazer o Brasil. Com o Lula, o que você ia fazer era justiça social. Não entusiasma mais as elites, só o povo. Sou petista, sou lulista. Naquela altura, a esquerda toda era contra o Vargas. Tem esse espírito dos cariocas, ser do contra. Todos diziam que era um imperialista. Agora dizem que o Lula é um populista e um vendido aos bancos (risos). A verdade é que os bancos sempre se deram muito bem, obrigado.Agora, 64 é que foi complicado. Estava dirigindo o Cepal-BNDE, formado pelo (Celso) Furtado. Fiquei assustada. Fiquei de vice-diretora em exercício, grávida do segundo filho – eu sempre entro grávida nas situações dramáticas. Agora a única coisa que pode acontecer é eu morrer numa crise mundial (risos).
Wagner Nabuco – A senhora tem memória do dia do golpe?Eu era professora da escola de Economia (Instituto de Economia da UFRJ). O diretório de estudantes é que queimou a UNE. Estava subindo para Copacabana e vi a UNE em chamas. Passei a noite ligada no rádio. Há dois golpes que não posso esquecer. Esse, e o do Chile, tinha estado no Chile entre 68 e 73 e voltei para dar aulas. Aí, na televisão, a única coisa que a gente viu foram as cinzas e a fumaça do palácio. Tirando isso, só a agonia de umas 48 horas no Doi-Codi, sei lá por que diabo. Aliás sei, isso foi contra o Geisel, o Simonsen contou.
Para continuar a ler essa entrevista e outras matérias confira a edição de março da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou assine a versão digital da Caros Amigos.



0 comentários:
Postar um comentário